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Não é ofício do poeta apontar caminhos, mas sobretudo despertar ânsias.(Hermann Hesse)
Textos
Homens sentenciantes: fui condenado e absolvido. Os Nardoni e Eu.
Ricardo Giuliani Neto
Na semana passada escrevi sobre o julgamento do casal Nardoni. Posicionei-me sobre mais um dentre tantos e tantos temas tormentosos e vicejantes no cotidiano da sociedade de massas; tomei a catarse coletiva gerada pelo julgamento dos Nardoni e, a partir das leituras que a mídia fez e faz, opinei.
É evidente que ao falar em mídia, falo de todos aqueles que não tem outro modo de se relacionar com o mundo a não ser por intermédio da informação massificada. Falo pra gente que ao ver o outro desliga o cérebro e turbina o fígado; falo pros que, ao ver outro, são capazes de se reencontrarem e de se entregarem às duras tarefas de compreensão e de inclusão do semelhante ao mundo vivido por nós outros.
Falo pros que, diante da massificação informativa, insurgem-se e lutam pelo resgate da informação inteira. Falo pros que não se contentam com o mundo descrito pela mídia. Então, poder falar, é uma riqueza e motivo de exaltação aos ventos democráticos da terra brasilis. Faz pouco, não era assim!
A universidade não forma o cidadão, no máximo o sofistica, o lustra, não mais do que isso. Dizia o meu avô: canudo não encurta orelhas. Digo eu: canudo, não faz ninguém mais sensível ou mais veraz, ao contrário, por vezes a arrogância bacharelesca mata o pouco que ainda sobra quando se entra no mundo seleto das universidades.
A mídia é um dos aparatos constituidores da esfera pública e, na sociedade pós-moderna, cada vez mais, o meio, por excelência, de difusão dos consensos sociais. Quando falei sobre o julgamento dos Nardoni e dos homens sentenciantes, de certo modo, já sabia, que receberia destes homens, sentenças das mais variadas.
“Em cinquenta e dois anos de vida, jamais vi tanta estultícia exposta sob forma de texto -, escrito certamente – por alguém que deva se julgar a antítese de um estulto.” Assim um nobre leitor abre seu comentário sobre a minha coluna. Condenado fui por ter dado uma opinião divergente da do caro leitor sentenciante.
“Sábias palavras”, disse-me outro. Absolvido sumariamente em vista de ter escrito opinião idêntica à do generoso leitor. Um outro, sábio comentador, convidou-me à reflexão sobre o meu próprio escrito. Ponderou-me à releitura sobre o meu próprio texto e convidou-me ao pensamento sobre a comparação inadequada que teria feito entre Cristo e os Nardoni. Outro preferiu afirmar que eu misturara “alhos com bugalhos”; o da estultícia, completamente seguro, sentenciou ter sido “ridícula a comparação”.
O que me considera um estúpido – esta a sinonímia para estultícia – é um colega do mundo jurídico – denunciado por terminologia do tipo “indigitado casal” e outros bacharelescos –, e, a partir da sua própria opinião, condena-me por ter-me atrevido a opinar contra a opinião pública, contra a opinião publicada e contra a opinião daquele que me julgou estúpido, néscio e outras coisas que o mundo da cibernética, ou do papel em branco, aceitam.
Isso é da democracia: julgar o outro pessoalmente sem sequer ter noção ou preocupação a respeito de quem estamos falando.
Sou dos que se chocam com o populacho queimando fogos em comemoração a uma condenação criminal. Se a Justiça condenou, o momento deveria ser de reflexão, nunca de regozijo e satisfação. A condenação não trará Isabella de volta. Com o julgamento, cumpriu-se a Lei. Ponto! Foguetes, como tudo neste caso, foram mais uma demasia!
O leitor que me envaidece pelas ditas “sábias palavras”, absolve-me por uma opinião que na visão de outro leitor é estulta, estúpida, tola e sem cabimento. Onde estará, então, a verdade? No foguetório? Creio que não! Há somente opiniões, mesmo que divergentes da minha, que merecem ser respeitadas tanto quanto a sentença judicial condenatória.
E assim caminhamos todos nós, homens sentenciantes, abrindo os olhos para, desde os primeiros momentos da manhã, julgar o bem e o mal, atribuir o certo e o errado, afirmar a auto-suficiências e patentear a estupidez ou a sabedoria.
Os Nardoni foram condenados, o juízo dos homens, dado e os foguetes espocam nas consciências daqui e de acolá. Fui condenado e absolvido; mas vou satisfeito pelo simples fato de ter sido lido.
Respeitar a opinião do outro pode ser tudo, menos estupidez. O mundo não pertence aos homens sentenciantes e muito menos é dado aos nossos sentimentos primitivos.
Refletir é uma obrigação que homenageia a racionalidade e pode ser a condição de possibilidade para que no amanhã sejamos seres humanos melhores do que hoje somos.
Aos que me condenam, obrigado. Aos que me absolvem, valeu!
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SBernardelli |
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Publicado em 30/03/2010 às 22h52
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